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SPCI - Sociedade Portuguesa de Cuidados Intensivos

Revista Brasileira de Terapia Intensiva

AMIB - Associação de Medicina Intensiva Brasileira

OFFICIAL JOURNAL OF THE ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE MEDICINA INTENSIVA AND THE SOCIEDADE PORTUGUESA DE CUIDADOS INTENSIVOS

ISSN: 0103-507X
Online ISSN: 1982-4335

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Teixeira ACC, Caruso L, Soriano FG. Terapia nutricional enteral em unidade de terapia intensiva: infusão versus necessidades. Rev Bras Ter Intensiva. 2006;18(4):331-337

 

 

2006;18(4):331-337
Original Article

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-507X2006000400003

Nutrition support in an intensive care unit: delivery versus requirements

Terapia nutricional enteral em unidade de terapia intensiva: infusão versus necessidades

Ana Carolina de Castro TeixeiraI, Lúcia CarusoII, Francisco G SorianoIII

INutricionista, Ex-Aprimoranda do Serviço de Nutrição e Dietética do Hospital Universitário da USP
IINutricionista do Serviço de Nutrição e Dietética do Hospital Universitário da USP
IIIMédico Chefe da Unidade da Terapia Intensiva Adulto do Hospital Universitário da USP

Apresentado em 06 de setembro de 2006
Aceito para publicação em 18 de outubro de 2006

Corresponding author:

Ana Carolina de Castro Teixeira - *Serviço de Nutrição e Dietética/ HU-USP*
Av. Professor Lineu Prestes, 2565
Cidade Universitária - 1º A
05508-900 São Paulo, SP
Fone/Fax: (11 ) 3039-9357
E-mail: [email protected]

 

Abstract

BACKGROUND AND OBJECTIVES: In critically ill patients nutritional deficiency is common. Considering this fact, the diary monitoring of energy delivered is extremely important. The objective of this study is to assess the adequacy of enteral nutrition (EN) in an Intensive Care Unit (ICU) and identify the reasons for interruptions in feeding.
METHODS: Prospective study of adult patients admitted to ICU in period of 53 days. Patients receiving continuous enteral tube feeding (22 hours/day) exclusively and post-pyloric tube feeding position were followed. The feeding volume started at 25 mL/h and was increased until nutritional goal, guided by a feeding protocol.
RESULTS: 33 patients between 18 and 85 years old were studied. 58% were male. The main admission diagnoses were cardiovascular diseases (27%) and septic shock (21%). The mean time to feeding was 25.3 hours after the patient admission and nutritional goal was achieved in a mean time of 32 hours. The total volume prescribed per day was sufficient to guarantee a mean of 26.1 kcal/kg of body weight and 1.04 g of protein/kg of body weight. Patients received a mean of 19.5 kcal/kg of body weight and 0.8 g of protein/kg of body weight, which correspond a 74% of adequacy. Interruptions of feeding for routine procedures related to patients accounted for 40.6% of the total reasons.
CONCLUSIONS: The nutritional support is adequate considering the literature for these patients, who clinical instability causes gastrointestinal intolerance. The effective participation of the Nutrition Therapy Team can contribute positively on nutritional therapy.

Keywords: enteral nutrition, nutrition assessment, nutrition therapy

 

 

INTRODUÇÃO

Em pacientes internados em unidades de terapia intensiva, a depleção nutricional é freqüente, já que a resposta metabólica ao estresse, conhecida como resposta de fase aguda, promove intenso catabolismo e mobilização de proteínas para reparo de tecidos lesados e fornecimento de energia.

A reação de fase aguda, seguida de imobilidade prolongada e a dificuldade de alimentação potencializam o catabolismo e predispõem ao déficit nutricional. Dessa forma, o paciente em reação de fase aguda como conseqüência do hipermetabolismo está em risco nutricional, independentemente do estado nutricional prévio. A situação clínica expõe ao risco nutricional pelas alterações que promove no metabolismo. Além disso, fatores como idade avançada, condição sócio-econômica e desnutrição preexistente podem intensificar a agressão ao estado nutricional1.

Quando há depleção nutricional, a resposta imunológica é deprimida, o processo de cicatrização é comprometido, ocorrem alterações na composição corporal e na função dos órgãos, além de outras conseqüências que levam à maior probabilidade de ocorrência de infecções, escaras, entre outras complicações. Isso resulta em incremento na morbidade e na mortalidade, além de levar ao prolongamento do tempo de internação, bem como elevar o número de re-internações, fatores esses associados com maior custo de assistência2-4.

Considerando que a terapia nutricional precoce e adequada no paciente grave é um importante fator na promoção da saúde, diminuição do estresse fisiológico e manutenção da imunidade, avaliar a eficácia desse tratamento é fundamental5.

Apesar da importância da adequada ingestão de nutrientes e energia, os pacientes internados em UTI, freqüentemente recebem um valor energético inferior as suas necessidade. Os fatores que impedem o adequado aporte nutricional enteral incluem os relacionados à intolerância da dieta (vômitos, diarréia, resíduo gástrico, distensão abdominal, etc.), os associados às práticas de rotina de enfermagem (manipulação do paciente, administração de medicamentos, etc.) e outras rotinas (procedimentos, exames)5-8. A atenção nutricional e o conhecimento dos fatores que impedem a efetiva administração da TNE permitem a adoção de medidas visando o aporte calórico-protéico adequado aos pacientes graves.

Este estudo teve por objetivo avaliar a adequação da Terapia Nutricional Enteral (TNE) de pacientes internados na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) adulto que recebem nutrição exclusivamente por via enteral e identificar as causas de interrupção da administração da fórmula enteral prescrita.

 

MÉTODO

Estudo de caráter observacional e prospectivo, com participação de pacientes de ambos os sexos, com idade entre 18 e 85 anos, admitidos na UTI. O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Instituição (CEP 603/05) e o paciente só entrou no estudo após assinar o termo de consentimento (Anexo 1).

Foram incluídos no estudo pacientes com terapia nutricional exclusivamente por via enteral e que a receberam por, pelo menos, 72 horas. Foram excluídos pacientes com contra-indicação de TNE ou que receberam dieta parenteral e/ou oral concomitante.

A coleta de dados iniciou-se no primeiro dia de introdução da nutrição enteral e o acompanhamento dos pacientes foi realizado até o momento de descontinuação da terapia nutricional, óbito, ou alta da unidade.

Todos os pacientes com indicação de TNE foram avaliados pelo nutricionista, para estimativa das necessidades de energia e de proteínas, de acordo com parâmetros estabelecidos para cada diagnóstico, conforme mostra a tabela 1.

O peso corporal utilizado para o cálculo das necessidades de energia e proteína foi estimado a partir de tabelas padrão de referência (peso ideal)9-12.

A partir da estimativa determinou-se o tipo de fórmula enteral e a velocidade de infusão da dieta para atingir a meta nutricional.

Os pacientes receberam nutrição enteral (NE) por meio de sonda locada na posição pós-pilórica (após confirmação por radiografia) e fórmulas enterais poliméricas em 3 opções de formulação (1 kcal/mL sem fibras; 1,5 kcal/mL sem fibras e 1 kcal/mL com fibras).

Todas as dietas foram administradas em sistema fechado através de infusão contínua por bomba infusora, com previsão de 22 h/dia, (considerou-se 2 horas de pausa para rotina de enfermagem e administração de medicamentos). A velocidade de infusão inicial foi de 25 mL/h e evoluiu para 10 mL/h a cada 4 horas, de acordo com a tolerância do paciente, seguindo o protocolo pré-estabelecido17. Esse foi desenvolvido em conjunto pelas equipes médica, de enfermagem e de nutrição, para a introdução e evolução da velocidade de administração da fórmula enteral em sistema contínuo.

Considerou-se como diarréia episódios de três ou mais evacuações líquidas ou semilíquidas em 24 horas18.

Os dados foram coletados pelas próprias pesquisadoras, nos prontuários médicos, nas anotações diárias de equipe de enfermagem em ficha específica.

Os resultados foram compilados no programa Microsoft® Excel.

O valor nutricional (valor calórico e proteínas) da fórmula enteral prescrita (volume planejado segundo prescrição diária de acordo com as necessidades calculadas) e da administrada (volume total diário realmente infundido), foi calculado de duas maneiras:

• Total diário de energia (kcal) e proteína (g) de cada paciente e média;

• Total diário expresso em relação ao peso corporal: energia (kcal/kg) e proteína (g/kg) de cada paciente e respectiva média;

A adequação foi obtida comparando-se esses valores a partir das seguintes fórmulas:

1. adequação do volume prescrito (%) =
volume prescrito x 100
volume calculado

2. adequação do volume infundido (%) =
volume infundido x 100
volume prescrito

Foi considerado como adequado o volume infundido superior a 90% do volume diário total planejado.

 

RESULTADOS

O estudo foi realizado por período de 53 dias, onde foram acompanhados 33 pacientes, com idade média de 57 anos (variando entre 18 e 85 anos) e 58% do sexo masculino.

O principal diagnóstico de internação foi o de causas cardiovasculares (27%), e em seguida, as internações por choque séptico/sepse (21%) (Figura 1).

A nutrição enteral (NE) é considerada o método de escolha para pacientes em UTI que necessitam de Terapia Nutricional. O início da TNE neste estudo foi em média 25,3 ± 20 horas, em relação à sua admissão. Esse dado é bastante satisfatório, uma vez que a introdução precoce da dieta (entre 24 e 48 horas após admissão na unidade) traz benefícios ao paciente, prevenindo o desgaste nutricional e conseqüentemente a desnutrição19,20.

A média de permanência na UTI foi de 15 ± 10,8 dias e em TNE de 12,8 ± 11,2 dias. O GET (Gasto Energético Total) médio calculado foi de 1694,8 ± 253,4 kcal (25,8 ± 3,5 kcal/kg) e 72,8 ± 13,1 g de proteína (1,1 ± 0,1 g/kg), o que é esperado, uma vez que as maiores causas de internação são por distúrbios cardiovasculares em que a recomendação é de uma dieta normocalórica (25 a 30 kcal/kg) e normoprotéica (entre 0,8 e 1 g/kg) e nos casos de sepse, onde a dieta deve ser normocalórica (25 a 30 kcal/kg), porém hiperprotéica (1,25 a 2 g/kg).

Os resultados mostraram que a quantidade diária de calorias e proteínas prescritas foram, respectivamente, de 1715,7 ± 250,8 kcal (26,1 ± 3,7 kcal/kg) e 68,6 ± 10,1 g (1,04 ± 0,1 g/kg). Esses valores estão bem próximos da média das necessidades calculadas, o que indica uma adequação entre o prescrito e as necessidades do paciente (Tabela 2). Esses resultados estão de acordo com o encontrado na literatura. Adam e Batson21 que analisaram cinco UTI da Inglaterra, obtiveram a média de necessidades de energia prescrita variando entre 76% e 100%.

Nem sempre os valores calculados são passíveis de serem atingidos na prescrição diária devido as fórmulas enterais disponíveis no mercado. Isto ocorre principalmente em relação as proteínas, onde foi constatada uma adequação de 94%. A maioria das fórmulas de sistema fechado é normocalórica e normoprotéica ou então hipercalórica e hiperprotéica, por isso é difícil atingir as necessidades de proteínas sem ultrapassar as necessidades de calorias. Para o adequado atendimento dessas necessidades nessa população é interessante a utilização de fórmulas normocalóricas e hiperprotéicas, que atualmente estão disponíveis por alguns fabricantes.

A administração da NE é prejudicada pelos fatores que impedem a sua infusão contínua. Neste trabalho, o aporte calórico médio administrado foi de 1280,16 ± 368,2 kcal (19,5 ± 5,6 kcal/kg) e de proteínas 50,8 ± 14,7g (0,8 ± 0,2 g/kg) o que representa, respectivamente uma adequação de 74,4% e 74,1% em relação ao prescrito (Tabela 3). De Jonghe e col.7 também obtiveram resultados semelhantes, onde a média do GET prescrito foi de 78% e o realmente administrado foi de 71%.

Já McClave e col.22, demonstraram uma taxa de administração média de 51,6%, mas somente 14% dos pacientes atingiram o objetivo calórico após 72 horas do início da NE.

Estudos mostram que a porcentagem de administração da NE em UTI é variável e pode atingir de 50% a 100% do objetivo calórico desejado7,21-24. As figuras 2 e 3 apresentam a diferença entre o administrado e o prescrito de cada um dos 33 pacientes acompanhados. Pode-se observar que apesar da média ter atingido valores de adequação muito bons, alguns pacientes tiveram uma administração inadequada. Isto se deve a fatores que não permitiram a contínua infusão como previsto.

A administração de NE é dificultada por fatores diretamente relacionados com a Terapia Intensiva (instabilidade hemodinâmica, jejum para procedimentos e exames, dentre outros). Ocorrem também problemas mecânicos com a sonda nasoenteral, como obstrução, mau posicionamento, demora para a sua repassagem.

Os principais fatores que impediram a adequada administração da NE foram as interrupções de rotina relacionadas ao paciente (40,6%), como por exemplo, pausas para administração de medicamentos por sonda, pausas para banho, etc. Não foi possível quantificar essas pausas já que não existem registros específicos para anotação em fichas de controle. Uma observação pertinente é de que os dados foram coletados logo após a implantação do sistema fechado e do protocolo de infusão contínua. Este fato pode ter interferido na falta de especificação detalhada das pausas.

A segunda principal causa de interrupção da dieta foi jejum para procedimentos (extubação, traqueostomia e repassagem da sonda) em 21% dos casos (Figura 4).

Em um estudo realizado por Elpern e col.5, com 39 pacientes de UTI recebendo NE em infusão contínua, a interrupção da administração da fórmula enteral por exames e procedimentos foi o principal motivo com 35,7% das ocorrências.

No presente estudo o refluxo representou 12,4% (Figura 5) das causas de interrupção da NE. Tal resultado é inferior ao encontrado na literatura. No estudo realizado por Elpern e col.5 as causas relacionadas à interrupção da dieta devido ao refluxo foram de 28% e Petros e Engelmann25 encontraram 31,9% de incidência de refluxo como causa de interrupção da dieta.

Uma provável explicação para essa menor incidência de refluxo, se comparado com o encontrado na literatura, é a locação da sonda na posição pós-pilórica, permitindo melhor tolerância da dieta. Sabe-se que pacientes críticos podem apresentar gastroparesia e aumento do resíduo gástrico, sendo a estase gástrica uma das principais causas mensuráveis que impedem a administração da NE. Um ponto a ser considerado é que na literatura, estudos comparando posicionamento da sonda pré e pós-pilórica mostram-se um tanto inconclusivos26-28.

Estudos indicam que a incidência de diarréia em pacientes com NE varia entre 2% e 63% 29-31 dependendo do parâmetro utilizado para a classificação de diarréia. No presente estudo, 36% (n = 12) dos pacientes apresentaram pelo menos um episódio de diarréia. Em estudo realizado por Elpern e col.5 constataram-se diarréia em 72% dos pacientes, enquanto que Petros e Engelmann25, obtiveram apenas 9,6% de incidência de diarréia. Isso demonstra a grande variabilidade de dados encontrados quando se refere à incidência de diarréia.

Cabe salientar que a diarréia não foi causa de interrupção da dieta no presente estudo.

 

CONCLUSÃO

A população predominante no estudo foi de homens cujo principal diagnóstico de internação foi relacionado às disfunções cardiovasculares e choque séptico. Apesar da média de idade ser de 57 anos, parcela considerável, 48% era composta de idosos (> 65 anos).

O volume prescrito de fórmula enteral atingiu as necessidades nutricionais de energia e esteve bem próximo de atingir as necessidades de proteína. No entanto, a adequação do volume administrado em relação ao volume prescrito não alcançou o total planejado. Nesse sentido é importante considerar que na literatura, os estudos com pacientes críticos apresentam valores semelhantes aos encontrados no presente trabalho.

As intercorrências relacionadas à tolerância gastrintestinal do paciente foram menores se comparadas às demais causas de interrupção da NE. Provavelmente esse resultado é conseqüência da utilização do protocolo para evolução da TNE em infusão contínua. Além disso, cabe enfatizar o grande envolvimento das equipes em seguir o protocolo. Outro fator que provavelmente contribuiu para melhor evolução da NE foi a sonda na posição pós-pilórica, que se mostrou favorável à prevenção de resíduo gástrico e intercorrências relacionadas.

Os outros fatores que interferiram na administração da NE podem ser minimizados. O tempo de jejum para os exames e procedimentos pode ser reduzido se for realizado um planejamento adequado para a interrupção e re-introdução da infusão da dieta. As pausas para procedimentos de enfermagem e fisioterapia também podem ser diminuídas se forem realizadas de formas sistematizada e articulada. O continuo treinamento da equipe de enfermagem pode diminuir as intercorrências relacionadas à obstrução e perda da sonda enteral, assim como uma rápida troca da sonda nesses casos.

Dessa forma, a presença de Equipe Multiprofissional de Terapia Nutricional (EMTN), o seguimento do protocolo para infusão da dieta e o constante treinamento e sistematização do atendimento contribuem para melhorar a administração da TNE em Terapia Intensiva, fundamental para a assistência ao paciente grave em risco nutricional.

 

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Recebido do Serviço de Nutrição e Dietética do Hospital Universitário da Universidade de São Paulo (USP), São Paulo, SP

 

 

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